sábado, 18 de março de 2017

Refletindo...

O livro Carnavais, Malandros e Heróis de Roberto DaMatta nos pergunta várias vezes: “você sabe com quem está falando”. Quantas vezes não passamos por cenas assim... no mundo da comunicação mesmo, se sou jornalista tenho (ou me aposso do) direito ao acesso a vários espaços...

 Porque acreditar num momento pleno de liberdade e criação como ocorre no carnaval, quando esse momento é, de fato, uma mentira, uma ilusão e um cardil de três noites? 


 Então, por que mesmo somos únicos? Se quiser mais informações para entender o brasileiro é uma sugestão a leitura da obra, para rever um pouco do autoritarismo, dos costumes e privilégios que temos estruturados historicamente. A sugestão de leitura me foi feita por um colega de trabalho. E independente de que tendência se apoie, DaMatta é um dos intelectuais que debate questões nacionais e considero sempre interessante observar vários pontos de vista.



Sobre o livro
Carnavais, malandros e heróis discute antropologicamente o que torna a sociedade brasileira diferente e única, seguindo análise crítica e comparativa de Roberto DaMatta. Ele que está com 80 anos, é natural de Niterói (RJ).

Conforme sinopse das livrarias que o vendem:




O que torna a sociedade brasileira diferente e única? Este livro responde a essa questão através do dilema que faz do Brasil um país de grandes desigualdades, mas de futuro promissor. Os ensaios de 'Carnavais, malandros e heróis' foram considerados, na época do lançamento, como uma visão inovadora e um esforço definitivo para o entendimento do Brasil. Embora o carnaval tivesse sido tema de alguns estudos, pela primeira vez um antropólogo considerou a sociedade através dessa e de outras festividades, transformando-as em janelas privilegiadas para as interpretações do Brasil. Para Roberto DaMatta, tanto o carnaval quanto seus malandros e heróis são criações sociais que refletem os problemas e dilemas básicos da sociedade que os concebeu. Mito e rito são, assim, dramatizações ou maneiras de chamar a atenção para certos aspectos da realidade social dissimulados pelas rotinas e complicações do cotidiano.

Já da análise sobre o personagem integrante da cultura portuguesa e brasileira, Pedro Malasartes, me fez assistir ao clássico Mazzaropi. Quantos exemplos de heróis e de malandros teremos nós!


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Comunicação integrada

Relembrar é necessário. Ainda mais quando vc começa a olhar material antigo e ver o quanto era importante cada tema abordado no curso de Pós-Graduação de Jornalismo Empresarial. E como minha memória é falha, vamos às anotações feitas em junho de 2013, aula da professora Dra. Lucelma Cordeiro...

Ah, antes de iniciar, lembro do post que fiz de leitura prévia do material enviado para nós, os estudantes. O nome era o mesmo da postagem de agora: Comunicação  integrada.


Margarida Kunsch, Professora da USP, é o grande nome dessa área. Ela quem ajudou a estruturar o que se entende por comunicação integrada no Brasil. Aqui podemos fazer uma analogia com o corpo humano/organismo, assim é a “organização”, em que podemos trabalhar para facilitar os sistemas internos.Visão holística das várias modalidades de comunicação. Junção da comunicação institucional/interna e administrativa/mercadológica. Um mix de comunicação.
Modernidade: - Fordismo: produção em massa;- Na comunicação de massa: espelha a realidade;- Simplicidade de organização social: tudo em “caixinhas”, nasceu artesão dará continuidade familiar;- Comunicação de um para todos. Pós-Modernidade:- Pós-Fordismo;- Produção Segmentada;- Comunicação Dirigida;- Comunicação de todos para todos.
Francisco Gracioso: Comunicação integrada ampliada ao marketingComunicação Integrada pressupõe:- Diálogo produtivo;- Planejamento conjunto;- Processo de tomada de decisões compartilhadas.Benefícios: eficácia da comunicação nas organizações, coerência da linguagem adotada.
Livro Marketing 3.0: mais que o tradicional, agregar valores sociais. Comunicação Interna: relacionamento ágil e transparente da direção com o público interno. Comunicação Institucional: visa o alcance da credibilidade. Comunicação Mercadológica: reforça a imagem de produtos e marcas. Jornalismo Empresarial: junto com pessoal de PP e de RP, forma o tripé clássico que organiza os fluxos de informação sobre as organizações. Assessoria de Imprensa: mediação entre organização e variados públicos.Identidade: o que a organização é, diz e faz.Imagem: é o que passa na mente do público. 

Lembre-se:
1 - “Oportunidades acontecem quando temos condição de aproveitar”
2 – Conheça! Na Guerra do Vietnã os donos da casa ganharam dos EUA porque conheciam o terreno.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Bebeu água do Madeira

Quem bebe água do rio Madeira não quer ir embora. Esta afirmativa é uma espécie de lenda da capital rondoniense. E eu tenho grande crença neste fato. Ao menos estou na cidade há mais de seis anos (ou oito de Rondônia). Vejo neste pequeno ínterim de permanência que se propaga uma “cultura” de identificação com a terra onde se vive muito maior hoje em dia. Ainda vi uma fase longa de “mal-querença”, por assim dizer, de virar as costas para a cidade e apenas querer levar delas suas riquezas.

Esse pensamento de fase nova se reafirmou após ler o livro de Aleks Palitot “Rondônia uma história”, em especial esse trecho:

“Cidade antiga, que infelizmente não vive e nem preserva seu passado. Parece ter vergonha da sua história e identidade”  (Palitot, 2006, p. 129).

Lógico, ainda precisa cuidar muito mais de seu patrimônio histórico. Mas como o próprio autor finaliza seu livro e seus pensamentos sobre a cidade:

“Nasci aqui, e tenho orgulho do meu DNA. Porto Velho te amo muito. Mas parece que aqui, a maioria são os que não te amam mais”. 

Assim como ele se diz amante de PVH, ouço hoje em dia muito mais relatos felizes envolvendo a cidade, muito mais reconhecimento por pertencer à comunidade urbana porto-velhense (tenho pouco contato com distritos e outras áreas rurais) deste município de extensões enormes (segundo Wikipédia: maior área territorial, com mais de 34 mil km², mais extenso que a Bélgica e Israel). Vejo pesquisadores identificando o orgulho de ser “bera”, de ser “beradeiro”.

Que esta fase tenha vida muito longa e todos os cidadãos daqui lutem por manter essa identidade e esse “bem-querer” ao local onde se vive e se consegue ganhar o pão. Sem ser bairrista, mas tenho tendência a gostar do local onde estou fixada (se fosse diferente, logo teria buscado outro ponto, outra paragem).

Se Rondônia é como diz Palitot, “um lugar de riquezas históricas e culturas variadas” (p. 13), então precisamos beber mesmo, e com muito orgulho, águas do Madeira, do Guaporé, do Mamoré, do Machado, do Jamari e de todos os rios que foram esse pedaço da Amazônia brasileira.

Para saber mais sobre o autor e o livro, pode-se consultar o blog dele: Aleks Palitot. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Veias abertas, ainda...

Estava lendo críticas ao livro de Eduardo Galeano “As veias abertas da América Latina”, especialmente as publicadas em 2014 após a participação dele na 2ª Bienal do Livro de Brasília. Essa passagem me chamou a atenção para o que os meios de comunicação avaliaram como “arrependimento” ou que eles classificaram que Galeano achava – simplificadamente - “ruim” o texto.

Não sou estudiosa de Galeano, mas tenho comigo que o alvoroço foi criado erroneamente. O grande escritor na verdade foi mal interpretado. Ele disse algo mais profundo que isso.

Coloquei como meta concluir a leitura do chamado clássico das “esquerdas” e até o momento não vejo porque motivo Galeano não deveria ler ou escrever aquele texto novamente. É certo que é árido. Muito árido ler como fomos de alguma forma saqueados por outras potências (e por acaso deixamos de ser?).
Mas aquela é uma denúncia que precisava ser feita. Foi muito importante para a época e fez governos (muito deles militares) tremer (o livro foi proibido). Veja um exemplo de verdades que o livro traz:

Meu companheiro, camponês de fala guarani, desabafou algumas palavras tristes em seu castelhano. “Os paraguaios somos pobres e poucos” (Galeano, 2016, p. 265).

É certo que ele alegou não ter na época formação necessária em economia para a escrita, mas somente a reflexão de quanto o povo latino é e foi historicamente explorado já vale todo o trabalho. E vale ainda mais a sua leitura, é claro.

O que me chama a atenção é a mistura com a literatura feia na obra, porque livros de Jorge Amado também são referências (São Jorge de Ilhéus e Gabriela – Cravo e Canela) no capítulo “Plantadores de cacau acendiam seus charutos com notas de quinhentos mil-réis”. Mas a literatura não é espaço de denúncia, em que gritos podem ecoar e mostrar realidades?

Em tempo, ainda registro com olhar de admiração porque a obra de Galeano dialogou com clássicos brasileiros: “Formação Econômica do Brasil” de Celso Furtado, “História Econômica do Brasil” de Caio Prado Júnior, títulos de Darcy Ribeiro, dentro outros que se somam a autores argentinos, mexicanos, uruguaios, peruanos, chilenos, bolivianos...


Outras informações encontradas na internet sobre Veias abertas:


Para o escritor amazonense Milton Hatoum a obra do jornalista e contista uruguaio “deveria ser trabalhada nos cursos de jornalismo”.


Nascido no Uruguai, Eduardo Germán María Hughes Galeano, foi jornalista e outras profissões mais. Segundo a sinopse da Wikipédia:


No livro, de 1971, Galeano analisa a história da América Latina desde o período da colonização europeia até a Idade Contemporânea, argumentando contra a exploração econômica e a dominação política do continente, primeiramente pelos europeus e seus descendentes e, mais tarde, pelos Estados Unidos. A exploração do continente foi acompanhada de constante derramamento de sangue indígena. Devido à exposição de eventos de grande impacto para o conhecimento da história do continente, o livro foi banido na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai durante as ditaduras militares destes países.


E como diz a edição da LPM que tenho, Veias abertas da América Latina é "um livro (infelizmente) atual". Foi o que escreveu Galeano no prefácio escrito em agosto de 2010. A obra foi escrita em 1970 (1ª edição) e em 1977 ganhou uma atualização. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Por que voltei?

Tenho saudades do meu blog.
Voltei porque gosto muito dele!! Enfim...

Não estou brincando. E sei que estou há um tempo sem postar nada aqui (culpa da correria, dos estudos... da vida). O fato é que tenho saudades de manter as minhas anotações públicas, de fazer o compartilhamento das dúvidas e das respostas que vou alcançando.  Por outro lado me resta uma certeza: daqui um dia volto com maior periodicidade. E espero que esta não seja somente uma promessa (é, 2017 para o Blog da Rosália Silva acaba de iniciar).

A título de informação, o blog já ultrapassou a marca de 95 mil visualizações. Algo muito maior do que imaginei um dia obter. Mesmo sendo "ultrapassado", ter um blog ainda é ter espaço de comunicação!


Para hoje o que me está facultado é publicar anotações feitas em 2012, durante aula da pós-graduação em Jornalismo Empresarial na Faculdade Santo André-RO. A professora era a Giordana, do IFMT, doutoranda na época, e que nos levou diversos conhecimentos novos. Este aqui é sobre novas mídias. Como ela mesma ressaltou, “sempre vai ter um novo software, uma nova mídia, realmente mais abrangente que cybercultura”. É a inovação que não cessa. E como recordar é viver:


Contexto – retrospecto: Redes x mídias sociais: estimular a reflexão/teoria/prática. 
Antes era um aluno centralizado no professor, mudou o processo educacional. Como isso muda no jornalismo ou muda o jornalismo? A pós serve para isso, para pensar e repensar uma prática de mercado.
Sociedade do conhecimento: “se as pessoas conseguirem aprender como fazer a tecnologia trabalhar a seu favor o resto é apenas detalhes” Mark Brigs
História/Revolução Agrícola/Industrial e da Comunicação/Hipermodernidade/Pós-Modernidade. Vivemos hoje o contemporâneo.
Sociedade da informação de cunho maior econômico e político.
“Advento da sociedade industrial”, livro.
Hoje nossa economia é centrada na troca de informações.
Mas contrapondo a sociedade da informação, vem a academia/Unesco. Seria mais sociedade do conhecimento, porque mais que a informação, o importante é o conhecimento. Se apropria mais. Conhecimento seria o utópico, o fim. Ideal: toda população recebe informação. Todos têm e vão ter conhecimento de tudo. Já o acesso é ter a mídia e saber utilizá-la.
Só que.... ainda não estamos falando de uma sociedade do conhecimento, especialmente no contexto da sociedade brasileira. Unesco: expressaria melhor o dinamismo do que acontece com a sociedade.
“Mudar é inevitável. Progredir é opcional. O futuro é agora” Mark Brigs.
A vista acaba cansada: mesmo vendo a pauta na rua, prefere o comodismo da tecnologia. Somos on/off, tudo junto. Rua e internet se confundem no trabalho do jornalista.
Do personal computer à fase do computador coletivo (conecta pessoas) e agora o computador coletivo móvel. Ou como diz André Lemos: tecnologia nômade móvel.
Internet é rede de redes que se compartilham entre si.
Mídia de Massa X Mídia Digital.
Mídia tradicional: gatekeeping e na digital é gatewatcher (público subverte a tradição e fiscaliza o que a mídia publica).
Web 2.0 (plataforma vai juntar diferentes mídias. Inteligência coletiva) x web 3.0.
Prosumers: produtores e consumidores de conteúdo (possuem blogs...) veículos cooperativos.
Cloud computing: interferir no armazenamento da informação, uma tendência integrante da web 2.0.
AINDA NÃO MUDAMOS A FORMA DE ESCREVER, DE IMPRESSO À NAVEGAÇÃO.
Por que continuar escrevendo no formato de pirâmide invertida se na web temos outras ferramentas, como hiperlinks e imagens em que o leitor pode iniciar o texto em qualquer altura/vídeo/box?
Modelo não-lead de Portugal: podemos sair da “caixinha”. No jornalismo seguimos o impresso: linguagem sublinhada e link.
Obrigação de estar inserido nos ambientes, porque não tivemos suporte universitário. E vamos aprendendo na prática esse novo fazer.
Web 2.0 significa participação e interatividade.
3.0 são processos em construção com colaborações mundiais, vai ser mais inteligente. Websemântica (vai buscar o que mais se adequar à minha vida na net, por exemplo). Preferência dos usuários. Internet das Coisas. Ampliar o armazenamento de dados.
Como fazer comunicação nessas novas ferramentas? E usar tudo isso a nosso favor?
Conceito de cauda longa: deixa de ter concentrações e passa a ter mais nichos. Novos processos sociais, novos modelos comunicacionais, novos modelos econômicos e políticos.
Crowdsourcing: empresa terceiriza o trabalho por meio de processo colaborativo.  Sendo que colaborativo é diferente de participativo. Usuário estão mais empoderados que o espaço oferecido pelos veículos para interação. Na rede, sempre estar dando feedback ao usuário.
Redes sociais sempre existiram. Diferente de Mídias Sociais (Facebook, Linkedin...). Mídias digitais (tecnologia em si).
Celular é a grande sacada. Não tem mais dicotomia estar on/off na rede. Celular é quase extensão do corpo, pois está agregando uma série de outras mídias: net, tv, áudio, texto. Tem muita força. 

domingo, 21 de agosto de 2016

Ainda sobre a Linguística...

Depois de ler as 312 do livro “Introdução à linguística 1: domínios e fronteira” de Anna Christina Bentes e Fernanda Mussalim, publicado pela Cortez Editora na Coleção Introdução à Linguística compreendi um pouco mais sobre os estudos linguísticos. Ainda me restam muitas dúvidas, mas para mim ele nos faz ter uma visão geral de todas as áreas (é que estou iniciando a leitura do segundo volume). 

Meu interesse na obra foi a seleção do Mestrado da Universidade Federal de Rondônia, em que o edital do Mestrado em Letras normalmente cobra algum campo de estudo e que o livro  nos mostra tão bem esses temas. No meu entender, se necessitar de algum embasamento nas outras questões, poderemos utilizar sim os conhecimentos aqui adquiridos. O que vejo de ponto favorável é a visão crítica que ele pode nos ofertar. Até mesmo nos campos da linguística mais tradicional não poderemos ver o texto isoladamente. Tudo depende do uso que necessitamos para ele, é claro, mas um texto nunca é isento, sem objetivos, por mais incoerente que esteja nos parecendo sempre é bom dar uma releitura:

(...) podemos perceber que as informações presentes nos noticiários não são neutras. Elas podem ser arranjadas para produzir efeitos muito específicos: no caso do exemplo (16), uma notícia afirma uma queda de 45% nas vendas de carros, muito provavelmente nos aponta para a construção de uma imagem pouco positiva da situação econômica do país; no mesmo dia, uma outra notícia, exemplo (17),  uma nota (18)que relata uma melhora na venda de carros populares, muito provavelmente nos aponta para a construção de uma imagem um pouco mais positiva da situação econômica do país; uma nota(18) sobre uma possível vitória de um determinado candidato nas próximas eleições presidenciais nos aponta para a construção de uma imagem bastante positiva do candidato em questão.
Relembrando sobre o livro, alguns apontamentos da internet:
O trabalho coletivo e engajado dos vários autores dessa obra resultou na sua consolidação como uma referência no Brasil: um material imprescindível para a formação dos profissionais da área de Letras e Linguística e também um guia de conhecimento básico do campo dos estudos da linguagem, que figura na bibliografia obrigatória de vários programas de pós-graduação no país. SUMÁRIO: 1. Sociolinguística; 2. Linguística Histórica; 3. Fonética; 4. Fonologia; 5. Morfologia; 6. Sintaxe; 7. Linguística Textual.
Professora do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora da Fundação de Amparo àPesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Realizou pós-doutorado no Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia em Berkeley e é líder do Grupo de Pesquisa no CNPq intitulado Linguagem comoprática social: analisando a produção, a recepção e a avaliação de interações, gêneros do discurso e estilos linguísticos. Atua nas áreas de Sociolinguística, Linguística do Texto e do Discurso eLinguística Aplicada. Coordena o Centro de Pesquisa "Margens" (IEL/Unicamp). É organizadora de várias obras e autora de livros e de artigos científicos. É membro do Comitê Gestor e Editorial da CortezEditora.
Segundo a autora, o propósito da obra é: ir além dos limites da frase, que procura reintroduzir, em seu escopo teórico, o sujeito e a situação da comunicação, excluídos das pesquisas sobre alinguagem pelos postulados dessa mesma Linguística Estrutural, compreendendo a língua como um sistema e como código, com função puramente informativa.
Abrange três momentos com preocupações teóricasbastantes distintas entre si. No primeiro momento é voltado para a análise transfática onde não conseguiam explicar as teorias sintáticas que ficassem limitadas ao nível da frase; no segundo houve acompetência textual do falante, ou seja, a construção de gramáticas textuais e no terceiro o texto é visto não como um produto acabado, mas como um processo, resultante de operações comunicativas eprocessos lingüísticos em situações sociocomunicativas.
A construção dos sentidos no texto diz respeito ao modo como os elementos dão sentido quando chega aos interlocutores. 

E mais...

Compreendendo dois volumes, Introdução à Linguística: Domínios e Fronteiras é uma coletânea de textos que cobre "as diversas ramificações da Lingüística, aqui entendida como a ciência da linguagem verbal humana" (Ingedore Koch, capa da obra), destinada a leitores iniciantes ou não especializados, escrita por pesquisadores especialistas em suas respectivas áreas.
O Volume 1 inicia com textos sobre Sociolingüística (Tania Alkmim (parte I) e Roberto Gomes Camacho (parte II)) e Lingúística Histórica (Nilson Gabas Jr.), seguidos das "áreas que fazem parte daquilo que é tradicionalmente concebido como descrição gramatical das línguas naturais" (Introdução das organizadoras): Fonética (Gladis Massini-Cagliari e Luiz Carlos Cagliari), Fonologia (Angel Corbera Mori), Morfologia (Filomena Sandalo), Sintaxe (Rosane de Andrade Berlinck, Marina R. A. Augusto e Ana Paula Scher). Finaliza com o artigo de Anna Christina Bentes sobre Lingüística Textual.
O Volume 2 abrange mais 8 áreas: Semântica (Roberta Pires de Oliveira), Pragmática (Joana Plaza Pinto), Análise da Conversação (Ângela Paiva Dionísio), Análise do Discurso (Fernanda Mussalim), Neurolingüística (Edwiges Morato), Psicolingüística (Ari Pedro Balieiro Jr.), Aquisição da Linguagem (Ester Miriam Scarpa) e Língua e Ensino: Políticas de Fechamento (Marina Célia Mendonça).
Vale ressaltar a importância das reflexões apresentadas por Sírio Possenti ao prefaciar a obra, que além de salientar a relevância da publicação, traz à tona discussões recentes sobre o papel da Lingüística nos meios não-acadêmicos.
Segundo as organizadoras (na Introdução), apesar da vasta bibliografia de estudos no campo, o propósito da obra é, em uma linguagem acessível, apresentar uma amostra de como as diversas áreas abordam os fatos de linguagem, principalmente no Brasil. "Propõe-se a ser uma porta de entrada para o campo de Lingüística, um campo vasto, heterogêneo, multidisciplinar".

Linguística Textual

Chegamos ao último capítulo do livro Introdução à Linguística, organizado pelas professoras Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes. Linguística Textual foi escrito por Anna Christina Bentes, que nos mostra que a Linguística de Texto surgiu com solinguista alemão Harald Weinrich e demorou pelo menos 30 anos para tornar-se menos questionável. Busca ir além da frase, reintroduzir o sujeito e a situação de comunicação e opõe-se, assim, à Linguística Estrutural (que compreendia a língua como sistema e códigos, com função puramente informativa).

A linguística do discurso faz parte desse esforço de várias abordagens de ir além da frase, e  surge não de forma homogênea, mas independente, com propostas teóricas diversas. Inclui diversos autores dos Estados Unidos e Europa. Na França, a Análise de Discurso: abordagens semiológicas (Roland Barthes, Greimas), das pesquisas sobre as pressuposições (Oswald Ducrot) e a elaboração do conceito de enunciação (Émile Benveniste).

Três momentos fazem parte da “história” da Linguística Textual: análise transfrástica (fenômenos que não conseguiam ser explicados pelas teorias sintáticas ou semânticas); construção das gramáticas textuais (com a euforia provocada pela gramática gerativa, postulou-se a descrição da competência textual do falante); e teoria do texto (o texto passa a ser estudado dentro de seu contexto de produção e a ser compreendido não como um produto acabado, mas como um processo, resultado de operações comunicativas e processos linguísticos em situações sociocomunicativas). Lembrando: não é possível afirmar que houve ordem cronológica entre os dois primeiros momentos (análise transfrástica e das gramáticas textuais).

1) Análise transfrástica – da frase para o texto. Teóricos = Harweg (1968): texto é uma sequência pronominal ininterrupta. Isenberg (1970): texto é uma sequência coerente de enunciados.
Fenômeno da correferenciação: “Pedro foi ao cinema. Ele não gostou do filme.” O pronome empregado (ele) não é simples substituição, mas fornece ao leitor/ouvinte instruções do contexto entre a predicação que faz do pronome, contribuindo para a imagem do referente (Pedro). Também era estudada a pronominalização, a seleção de artigos (definidos e indefinidos), a concordância de tempos verbais, a relação tópico-comentário e outros.

2) Elaboração de gramáticas textuais – tentou-se construir, segundo Marcushi, o texto como objeto da Linguística. Os teóricos pensavam em uma gramática que refletisse sobre os fenômenos linguísticos inexplicáveis por meio de uma gramática de enunciados. Todo falante nativo possui conhecimento do que seja um texto. O conjunto de regras internalizadas pelo falante constitui sua competência textual. Para Charolles (1989) possui três capacidades básicas (competência textual):
- capacidade formativa, que lhe permite produzir e compreender um número potencialmente elevado e ilimitado de textos inéditos e que também lhe possibilita a avaliação, com convergência, da boa ou má formação de um texto dado;- capacidade transformativa, que o torna capaz de formular, parafrasear e resumir um texto dado, bem como avaliar, com convergência, a adequação do produto dessas atividades em relação ao texto a partir do qual a atividade foi executada;- capacidade qualificativa, que lhe confere a possibilidade de tipificar, com convergência, um texto dado, isto é, dizer se ele é uma descrição, narração, argumentação etc., e também a possibilidade de produzir um texto de um tipo particular. 

Completando, Fávero e Koch (1983), se os usuários da língua possuem essas habilidades, então, uma gramática textual teria as seguintes tarefas:
- verificação do que faz com que um texto, ou seja, a busca da determinação de seus princípios de constituição, dos fatores responsáveis por sua coerência, das condições em que se manifesta a textualidade;
- levantamento de critérios para a delimitação de textos, já que a completude é uma das características essenciais ao texto;
- diferenciação de várias espécies de texto. 
A elaboração de gramáticas textuais foi bastante influenciada pela perspectiva gerativista (semelhante à gramática de frases de Chomsky). Mas projeto não conseguiu ser realizado a contento. Era um projeto que estava muito preocupado em descrever a competência textual de falantes/ouvintes idealizados. Como não foi possível, a proposta passou a se investigar a constituição, funcionamento e compreensão de textos em uso = elaboração de uma teoria de texto.

3) Neste momento, o âmbito da investigação se estende do texto ao contexto (conjunto de condições externas para produção/recepção e interpretação de textos), noção de textualidade. Assim: língua passa a ser vista não como um sistema virtual, mas como um sistema atual, em uso efetivo em contextos comunicativos. Texto não mais como produto, mas como processo. A análise e explicação da unidade de texto em funcionamento, não o texto abstrato, formal.

A parir dos anos 70, Linguística de Texto é compreendida, dessa forma, como uma disciplina essencialmente interdisciplinar. E, atualmente, multidisciplinar, dinâmica, funcional e processual. Princípios gerais de textualidade (Beaugrande e Dressler): coesividade, coerência, intencionalidade, aceitabilidade, informatividade, situcionalidade e intertextualidade.

Interessante observar na história da constituição do sentido de texto na Linguística Textual é uma separação ocorrida entre estudos sobre texto/discurso de base anglo-saxã e a Análise de Discurso de linha francesa: enquanto na AD não se permite que se atribua ao sujeito nenhuma intencionalidade (ele é assujeitado), em Linguística Textual o sujeito sabe o que faz, como faz e com que propósito faz (a produção textual é uma atividade verbal consciente, intencional).

Definição de texto/objeto da Linguística Textual (não existe apenas uma definição): de acordo com Koch, texto é o resultado de uma atividade verbal, que revela determinadas operações linguísticas e cognitivas, efetuadas tanto no campo de sua produção, como de sua recepção.

Os conceitos de coesão e coerência são imprescindíveis para aqueles que pretendem trabalhar com níveis textuais e/ou discursivos de realização da língua. Eles estão ligados à construção dos sentidos do texto, a coesão é o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos linguísticos presentes na superfície textual encontram-se interligados, por meio de recursos também linguísticos, formando sequências veiculadoras de sentido. E a coerência é o modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a construir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos.

Debate atual: existe o não texto? Incoerente, sem sentido... para alguns autores sim, para outros não. Conforme Charolles, “o texto será incoerente se não souber adequá-lo à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras socioculturais, outros elementos da situação, uso dos recursos linguísticos etc. caso contrário, será coerente”.

Princípio da Interpretabilidade (a princípio todos os textos são coerentes): leitores/destinatários podem fazer julgamentos sobre a coesão ou não de determinada produção textual. Coerência depende de fatores diversos (recursos linguísticos, conhecimento de mundo, papel social do leitor ou destinatário, etc). Ex.: música Debaixo dos caracóis dos seus cabelos (Roberto e Erasmo Carlos) em que o conhecimento da situação comunicativa mais ampla colabora para entender que a pessoa que está em lugar distante e que não está feliz fala sobre artistas e intelectuais exilados na época da ditadura militar (em especial sobre Caetano Veloso). Lógico, música é polissêmica e sua poesia pode ter diversas outras interpretações para quem ouve.

Texto é constituído de um emaranhado de pontos de vistas, com diversas configurações de vozes e perspectivas enunciativas. A polifonia = jogo de vozes no discurso. Locutor de um texto incorpora em seu discurso asserções atribuídas a outros enunciadores (personagens do discurso), aos interlocutores, a terceiros, a pontos de vistas diferentes ou até mesmo à opinião pública em geral.

Conclusão: o texto de Anna Bentes apresentou a área de Linguística Textual no Brasil e conseguiu desenvolver teoricamente para propiciar análises sistemáticas de produções textuais sociocognitivamente contextualizadas. O mecanismo de coesão referencial (componentes da superfície do texto que fazem remissão a outro ou outros elementos do universo textual: catafórico, definitização, elipse, entre outros) não é usado ingenuamente, estando, na maioria dos casos, a serviço dos objetivos do locutor no momento da produção de seu texto.