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domingo, 6 de julho de 2014

Queijos, vermes e imprensa

Terminei hoje a leitura do livro de Carlo Ginzburg, O Queijo e os Vermes (2006, 6ª reimpressão), conforme recomendado pelo professor Artur Moret (Universidade Federal de Rondônia). No final, tive a impressão de ter voltado aos bancos universitários e estar vendo o filme O Nome da Rosa, baseado no romance de Umberto Eco. Na história, os crimes investigados pelo frade franciscano William de Baskerville, com ajuda do noviço Adso de Melk, mostram o que se igreja da época para impedir a livre distribuição de conhecimentos, no caso as obras apócrifas, os livros “proibidos”.  



Isso, de alguma maneira, se liga ao poder da imprensa em difundir o conhecimento, conforme podemos observar na fala do estudioso David Gitlitz, que é especialista em História Medieval,  no documentário (acima) que faz um resumo sobre a época e sobre o livro de Ginzburg:

Era mais fácil para a igreja manter o controle da teologia quando os livros custavam caro demais e os únicos que podiam compra-los eram igrejas e monastérios. Assim que a imprensa tornou o livro de bolso disponível a qualquer um que juntasse algumas moedas, ficou muito mais difícil manter o “Cabresto”.

E se é necessário continuar a refletira, a recordar para não repetir erros passados, vale lembrar que na mesma época que o Menocchio (Domenico Scandella), o moleiro perseguido pela inquisição, também era condenado o teólogo, filósofo, escritor e frade dominicano italiano Giordano Bruno (morto na fogueira pela Inquisição romana em 17 de fevereiro de 1600). E, tempos depois, o físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano Galileu Galilei (queimado vivo em 8 de janeiro de 16422 ), especialmente por defender que era a terra quem girava em torno do sol.

No prefácio à edição inglesa, Carlo Ginzburg traz como análise de número 9:

Dois grandes eventos históricos tornaram possível um caso como o de Menocchio: a invenção da imprensa e a Reforma. A imprensa lhe permitiu confrontar os livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe forneceu palavras para organizar o amontoado de ideias e fantasias que nele conviviam. A Reforma lhe deu audácia para comunicar o que pensava ao padre do vilarejo, conterrâneos, inquisidores – mesmo não tendo conseguido dizer tudo diante do papa, dos cardeais e dos príncipes, como queria. As rupturas gigantescas determinadas pelo fim do monopólio dos letrados sobre a cultura escrita e do monopólio dos clérigos sobre as questões religiosas haviam criado uma situação nova, potencialmente explosiva.

Antes de voltar ao livro de Ginzburg, no site Palavra da Verdade há a seguinte definição que se torna importante neste momento:
Inquisição - do latim Inquisitio, é um termo que deriva do ato judicial de inquirir, que significa perguntar, averiguar, pesquisar, interrogar. A Inquisição foi uma operação oficial conduzida pela Igreja Católica a fim de apurar e punir pessoas que não comungavam com os princípios ortodoxos da Igreja Católica.
Hereges - pessoas que pensavam, ou agiam, de forma conflitante com o que a Igreja apregoava como verdade.

De acordo com o livro, Menocchio teve a ousadia de “afirmar que o mundo tinha origem na putrefação”:
Tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos.

Concordo com o Posfácio escrito por Renato Janine Ribeiro nesta edição: “Menocchio é um herói, ou mártir da palavra”. Ele, um homem simples que leu muito (certo que não sabia escrever muito bem, uma vez que estava inserido ainda numa sociedade ainda com fortes traços de oralidade), e de fato, não só leu, refletiu. Ah, precisamos disso também hoje, ler, ter ideias, discordar, concordar com fundamento, enfim, pensar! Assim, como tenta esclarecer Ginzburg há uma ambiguidade em relação à “cultura popular”, em que ele conclui afirmando que há também “a impressionante convergência entre as posições de um desconhecido moleiro friulano e as de grupos de intelectuais dos mais refinados e conhecedores de seu tempo repropõe com toda força o problema da circularidade da cultura formulado por Bakhtin”. 

Segundo enfatizado por Renato Janine, “suas palavras são um protesto, são a recusa desse horror. Sua curiosidade, opiniões e destino fazem dele um desses homens para quem dizer o que pensam é tão importante que, por isso, arriscam a própria vida. Nem toda confissão é uma vitória da tortura; porque às vezes a pior tortura é ter a voz silenciada”. Dessa maneira de Menocchio, que tudo tenta entender  e questionar, o escritor afirma:

O importante não é o que o Menocchio leu ou recebeu – é como leu, é o que fez de suas experiências; o que diminui a distância que se costuma propor entre leitura e escrita, entre uma postura passiva e outra ativa diante do conhecimento.

Para saber mais sobre o autor Carlo Ginzburg e sobre a obra O Queijo e os Vermes, leia o livro ou acesse a resenha de William Cirilo.

sábado, 26 de março de 2011

Entendendo o design

Design = do inglês projetar, compor visualmente ou colocar um plano intencional.

Na realidade, o que se deve fazer para entender o design é estar atento ao processo de reprodução em série.

Fontes & Design

As fotes Times New Roman e Garamond são exemplos de famílias tipológicas conhecidas como romanas antigas.


Foi no chute que acertei a informação acima, feita por uma prova da FCC em 2009. Realmente não fazia ideia de quais eram as “romanas antigas”.

A questão complicada da Carlos Chagas me voltou à cabeça porque em “O que é design?” (Brasiliense, 2006), de Wilton Azevedo, estava vendo a definição de design gráfico, ou “parte de um projeto que se refere ao material impresso”.

Na parte gráfica, para entender o processo basta lembrar que os livros antes da invenção da imprensa eram copiados manualmente. Mesmo nessa época havia um certo trabalho de design para padronizar/deixar legível o livro. Mas com os tipos móveis de Gutenberg (1454) e a industrialização isso ganhou proporções maiores: “Desde os primeiros tipos gráficos de chumbo, a letra já ganhava um caráter de projeto”.

Hoje nos parece óbvio poder juntar, esticar ou inclinar as letras pelo computador, mas nem sempre foi assim. Agora basta comprar fontes para ter um bando de possibilidades maior. Um exemplo de fonte que Wilton cita é a Avant-Garde, criado pelo designer americano Herb Lubalin. “É um tipo extremamente fino em suas hastes, que só seria possível reproduzir através do processo fotográfico”.

Outra história interessante que o livro trás é quanto ao logotipo (design da escrita). Também a partir da industrialização, como acontecia às famílias tradicionais que possuíam brasões, também as empresas precisavam ser identificadas, daí surgem as marcas, ou logotipos, ou símbolos.

Wilton afinal se pergunta:
“O que é design?
Talvez essa pergunta não tenha mais importância no futuro, pois para se manter vivo o homem vai ter que se apoderar do simulacro que ele criou. A importância dessa informação só vai ter sentido para cobrir os poucos espaços que sobraram”.

Como ele próprio termina o livro, “o design é sempre uma forma de planejar uma saída”, por enquanto eu dou tchau.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

De novo, o jornal


Resgatando um pouco da história, pesquisei sobre a imprensa moderna. Conforme Jésus Barbosa de Souza, em “Meios de Comunicação de Massa – Jornal, televisão, Rádio” (Scipione, 1996), essa nasceu com a criação da tipografia. Foi a partir de Gutenberg que surge o que hoje é a grande indústria gráfica...

“A composição de caracteres móveis prensados com tinta sobre papel” só surgiu por volta de 1450. Marco esse que possibilitou ter atualmente máquinas que duplicam a escrita em número cada vez mais ágil. Pode parecer fácil hoje, mas que digam os escribas antigamente, fazer um livro era mais que artesanal!!! E como estava restrito o conhecimento!

As princípio o novo meio de comunicação facilitou o contato entre as “metrópoles europeias e o ultramar”, no século XVI.

“Em 1642, recém-saído do jugo espanhol, D. João VI proibia a circulação das gazetas gerais, ‘em virtude do mau estilo de todas elas e em razão da pouca verdade’”. E se naquela época em Portugal a imprensa viveu sob forte censura, imagina no Brasil-Colônia. Aqui só foi autorizada a primeira atividade tipográfica a partir de 1800 e bolinhas, com a chegada da família real... (e mesmo assim, o controle era grande).

Nesta passagem de Jésus Barbosa se pode visualizar m dos porquês do controle: “O jornal sempre esteve cerceado pela censura, por se entender que a notícia divulgada logo seria dominada por todos e por se temer a influência do jornalismo na opinião pública”.

Caso fosse apenas cerceamento da informação, se daria até um jeito... mas cada vez mais vejo é que está tudo dominado, mesmo!!! Pois, o povo não tem informação e não pode avançar em direitos. Nisso vai cada vez mais crescendo as dificuldades da falta de formação...

Para fechar, entre os textos que fazem parte do livro editado pela UnB, “Jornal – Da Forma ao Sentido: Quem fala por trás do jornal e em seu nome”, consta uma passagem em que mostra o jornal como uma membrana viva, um verdadeiro campo de atividade “um real já domesticado”, porque a mídia não está face a face com o real do mundo. Se bem que esse será tema de um próximo post.